segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Esquecer: Segundo o dicionário é; 1 Fazer com que (alguma coisa) saia da lembrança (própria ou alheia). 2 Pôr em esquecimento; desprezar; omitir.


Feliz é a inocente vestal! Esquecendo o mundo e sendo por ele esquecida. Brilho eterno de uma mente sem lembranças Toda prece é ouvida, toda graça se alcança
(Alexandre Pope)

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Porque não Amar Bethania? Que sutilmente da voz a poesia pura num pais cada vez mais concreto...

video


Eu estou sempre aqui, olhando pela janela não vejo arranhões no céu nem discos voadores. Os céus estão explorados mas vazios. Existe um biombo de ossos perto daqui.
.Eu acho que estou meio sangrando. Eu já sei, não precisa me dizer. Eu sou um fragmento gótico. Eu sou um castelo projetado. Eu sou um slide no meio do deserto. Eu sempre quis ser isso mesmo. Uma adolescente nua, que nunca viu discos voadores, e que acaba capturada por um trovador de fala cinematográfica.
.Eu sempre quis isso mesmo: armar hieróglifos com pedaços de tudo, restos de filmes, gestos de rua, gravações de rádio, fragmentos de TV. Mas eu sei que os meus lábios são transmutação de alguma coisa planetária.
.Quando eu beijo eu improviso mundos molhados. Aciono gametas guardados. Eu sou a transmutação de alguma coisa eletrônica. Uma notícia de Saturno esquecida, uma pulseira de temperaturas, um manequim mutilado, uma odalisca andróide que tinha uma grande dor, que improvisou com restos de cinema e com seu amor, um disco voador.
( Fragmentos do texto Disco Voador de Fausto Fawcet )

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Shakespeare por Dalí ou Salvador por William. Nas dobras temporais do espaço, a relusencia sutil da partícula existir...



A Persistência da Memória - 1931 Salvador Dalí



Soneto 12

Quando a hora dobra em triste e tardo toque
E em noite horrenda vejo escoar-se o dia,
Quando vejo esvair-se a violeta,
ou que A prata a preta têmpora assedia;
Quando vejo sem folha o tronco antigo
Que ao rebanho estendia sombra franca
E em feixe atado agora o verde trigo
Seguir o carro, a barba hirsuta e branca;
Sobre tua beleza então questiono
Que há de sofrer do Tempo a dura prova,
Pois as graças do mundo em abandono
Morrem ao ver nascendo a graça nova.
Contra a foice do Tempo é vão combate,
Salvo a prole, que o enfrenta se te abate.
William Shakespeare

terça-feira, 10 de agosto de 2010

"Mulher e Poesia" ou seria "Mulher é Poesia"?

Alem de sua beleza estonteante, a linda Cleo Pires demonstrou que também tem bom gosto quando o assunto e arte e literatura.
A bela que é a capa da edição de aniversário da 'Playboy' Brasil 35 anos; surpreende ao ter em uma de suas coxas um poema de Fernando Pessoa, elevando o nível artístico de suas fotos eróticas, e fazendo de suas proposta em posar nua algo muito mais: Sensual e Intelectualmente Exitante.

Tomara que esta moda pegue...


O poema que habita as coxas de Cleo Pires:

Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas ...
Que já têm a forma do nosso corpo ...
E esquecer os nossos caminhos
que nos levam sempre aos mesmos lugares ...
É o tempo da travessia ...
E se não ousarmos fazê-la ...
Teremos ficado ... para sempre ...
À margem de nós mesmos...
Fernando Pessoa.



sexta-feira, 30 de julho de 2010

Madonna’s Sex Book & Eros e Psique de Fernando Pessoa.


Como já é do conhecimento de todos, desde sua primeira aparição Madona tem sido um símbolo da libertação sexual para homens, mulheres, gays e outros indivíduos que se sentem oprimidos pela sociedade em função de suas praticas sexuais; então resolvi postar algumas imagens do livro "Madonna’s Sex Book" lançado em 21 de Outubro de 1992, que traz a Madona em fotos exorbitantes. Também posto o poema "Eros e Psique" de Fernando Pessoa para que posam se aprofundar em todos os sentidos da matéria: Carne e Desejo.

Quem quiser ter acesso a todas as imagens do livro e só clicar neste link: http://insightpublicidade.wordpress.com/2008/08/12/2159/



Eros e Psique


Fernando Pessoa
Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

Publicado pela primeira vez in Presença, n.os 41-42, Coimbra, maio de 1934.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Sendo a primeira vez que posto em blogger, resolvi postar este quadro e poema que na minha concepção, descreve muito bem quem sou...

Frida Kahlo - Moisés e o Núcleo Solar, 1945 - Private collection, Texas - ©
2008 Banco de México, Trustee of the Diego Rivera & Frida Kahlo Museums Trust.

O Haver

Vinicius de Moraes - 15/04/1962.


Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo estático,
E essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo,
E esse medo infantil de ter pequenas coragens.


A poesia acima foi extraída do livro "Jardim Noturno - Poemas Inéditos", Companhia das Letras - São Paulo, 1993, pág. 17.